Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

O poema da sexta-feira

A Ponte Mirabeau

Sob a ponte Mirabeau desliza o Sena
E os nossos amores
É bom lembrar, vale a oena.
Que a alegria sucede aos dissabores

A noite vem passo a passo
Os dias se vão eu não passo

As mãos nas mãos estamos face a face
Enquanto passa
Sob a ponte de nossos braços
A onda lenta de um eterno cansaço

A noite vem passo a passo
Os dias se vão eu não passo

O amor se vai como esta água barrenta
O amor se vai
Como a vida é lenta
E como a esperança é violenta

A noite vem passo a passo
Os dias se vão eu não passo

Passam-se os dias passam-se as semanas
Nada do que passou
Volta de novo à cena
Sob a ponte Mirabeau desliza o Sena

A noite vem passo a passo
Os dias se vão eu não passo

Tradução de Ferreira Gullar

...

Le Pont Mirabeau

Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Et nos amours
Faut-il qu'il m'en souvienne
La joie venait toujours après la peine

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

Les mains dans les mains restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l'onde si lasse

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

L'amour s'en va comme cette eau courante
L'amour s'en va
Comme la vie est lente
Et comme l'Espérance est violente

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

Passent les jours et passent les semaines
Ni temps passé
Ni les amours reviennent
Sous le pont Mirabeau coule la Seine

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

Guillaume Apollinaire, Alcools (1913)

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Vichy

Eu conheço bastante bem a França, mas nunca tinha vindo a Vichy. A cidade é pequena, so para dar uma ideia, nao me perdi nenhuma vez, é um fato inédito. Nao so nao me perdi como até ja indiquei caminho. Eu mesma nao acredito, mas é verdade.
O meu curso continua muito bom, so o primeiro dia foi meio chato, talvez eu estivesse muito cansada, ou nao tive empatia nenhuma com uma professora e logo procurei outro rumo.
Uma das minhas colegas africanas se chama Princesse, outro se chama Influence, sim, Princeza e Influência....O pai do meu sobrinho é africano também, mas ao meu sobrinho deram o nome de Daniel. Nao sei se minha irma impôs ou se o meu cunhado é menos criativo.
La vou eu de novo....

Domingo, 5 de Julho de 2009

La France

Passei uns dias, poucos, com minha irma em Bruxelas, agora estou em Vichy onde vou fazer o curso para professores de francês, começa amanha. E nao pensem que por isso estou esquecendo o portugues, so nao estou me entendendo bem com os teclados aqui, entretanto os usei por muitos anos....
Eu vim de carro de Bruxelas para ca, minha familia belga estava vindo para a França de ferias e gentilmente sairam um pouco do caminho para me deixarem aqui ontem. Saimos de Bruxelas por volta de 4 e meia da manha, so de pensar me da sono de novo. Mas a viagem foi divertida , pudemos conversar, dormir, rir, comer e no final das contas houve menos engarrafamento do que temiamos. E o mês das ferias, todo mundo sai ao mesmo tempo na Europa.
Vou andar um pouco mais pela cidade, tomar mais café, ver se ha livrarias abertas....
Infelizmente esqueci o cabo da minha maquina e nao vou poder transferir as fotos.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

O Poema da sexta-feira

Lisbon Revisited

Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me náufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

Álvaro de Campos

Fernando Pessoa

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Viagem

Ainda em Curitiba, malas abertas e bagunça pra todo lado. Saio amanhã.
Escolhi, para ler no trajeto, Memorial do Convento. Leio e depois deixo lá para minha irmã ler. Tentei salvar alguns livros no ipod (para ouvir em inglês)meu aluno me emprestou, só consegui salvar um, o livro do Obama e quando fui tentar os outros o ipod ficou bloqueado, o computador também entrou num clima estranho, tive que reiniciar e ainda por cima não sabia como desbloquer o ipod. Depois de muito apertar botões procurei na internet e descobri em quais exatamente eu tinha que apertar e por quanto tempo, 10 segundos. Importante esses 10 segundos porque eu já tinha apertado naqueles botões, no caso, o do menu e o do meio...se você algum dia tiver o mesmo problema, já sabe.
Ainda tenho que ir ao médico hoje, depilar se der tempo, escolher alguns presentes, dar as últimas aulas e voilà.

Felizmente consegui terminar a leitura de Os Irmãos Karamázov antes da viagem, não queria levar aquele livro tão grande comigo, mas também não queria abandoná-lo aqui antes de terminar. Este eu vou repassar para meu irmão assim que nos encontrarmos, já viram que eu gosto de repassar livros, não? Claro que um dia eu vou querer reler alguns deles, mas estarão em família ou com amigos, na pior das hipóteses, eu compro outro, é melhor do que deixar ali parado na estante por dez anos.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

TEORIA DOS CONJUNTOS

Cada corpo tem
sua harmonia e
sua desarmonia

em alguns casos
a soma das harmonias
pode ser quase
enjoativa

em outros
o conjunto
de desarmonias
produz algo melhor
do que a beleza

Mário Benedetti

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Neda´s Voice

Neda Agha Soltan é a iraniana que foi assassinada estes dias durante os conflitos no Irã. Morreu nos braços do pai, como se pode ler no texto abaixo. Alguém filmou tudo, é terrível, mas o vídeo está circulando o mundo todo e talvez Neda esteja se tornando um símbolo. Eu vi o vídeo no blog do Pedro Doria onde tenho acompanhado um pouco os acontecimentos, leio também o que vem publicando André de Leones que está em Israel.

Leiam o texto e visitem a página NEDA'S VOICE. Há textos belíssimos ali e talvez ajude a conhecer melhor um pouco do horror pelo qual estão passando.

"Yesterday I wrote a note, with the subject line “tomorrow is a great day perhaps tomorrow I’ll be killed.” I’m here to let you know I’m alive but my sister was killed…I’m here to tell you my sister died while in her father’s hands
I’m here to tell you my sister had big dreams…
I’m here to tell you my sister who died was a decent person… and like me yearned for a day when her hair would be swept by the wind… and like me read “Forough” [Forough Farrokhzad]… and longed to live free and equal… and she longed to hold her head up and announce, “I’m Iranian”… and she longed to one day fall in love to a man with a shaggy hair… and she longed for a daughter to braid her hair and sing lullaby by her crib…

my sister died from not having life… my sister died as injustice has no end… my sister died since she loved life too much… and my sister died since she lovingly cared for people…"

Sábado, 20 de Junho de 2009

Minha querida Sputnik - trecho

“Então me ocorreu que, apesar de sermos companheiras de viagem maravilhosas, no fundo, não passávamos de duas massas solitárias de metal em suas próprias órbitas separadas. À distância, parecem belas estrelas cadentes, mas, na realidade, não passam de prisões, em que cada uma de nós está trancada, sozinha, indo a lugar nenhum. Quando as órbitas desses dois satélites se cruzam, acidentalmente, podemos estar juntas. Talvez, até mesmo, abrir nossos corações uma à outra. Mas só por um breve momento. No instante seguinte, estaremos na solidão absoluta. Até nos queimarmos completamente e nos tornarmos nada.”

Trecho de ‘Minha querida Sputnik’ – Haruki Murakami

....
Li há algum tempo já este livro de Haruki Murakami e não gostei tanto quanto eu esperava. Minha expectativa era muito grande, tinha lido muito sobre o autor e os resumos da história também prometiam muito. Além disso eu estava lendo muitos autores japoneses na época, Tanizaki e Kawabata, sobretudo. Depois de Minha querida Sputnik não li mais nada do autor, dizem que Kafka à beira mar é muito bom, acho que vou tentar. Ele lançou um novo livro,1q84, e está vendendo aos montes no Japão.
Encontrei na internet este trecho de Minha Querida Sputnik e achei bonito. Sputnik significa companheiro de viagem em russo, aqui nessa história são duas mulheres viajando juntas e Sumirê está completamente apaixonada pela outra, mais velha, cujo nome eu me esqueci. Elas vão para a Grécia e....
....

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

O Poema da sexta-feira

ANNABEL LEE

Edgar Allan Poe

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

Tradução: Fernando Pessoa
...

Annabel Lee

Edgar Allan Poe

It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of Annabel Lee;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me.

I was a child and she was a child,
In this kingdom by the sea;
But we loved with a love that was more than love-
I and my Annabel Lee;
With a love that the winged seraphs of heaven
Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud, chilling
My beautiful Annabel Lee;
So that her highborn kinsman came
And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in heaven,
Went envying her and me-
Yes!- that was the reason (as all men know,
In this kingdom by the sea)
That the wind came out of the cloud by night,
Chilling and killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we-
Of many far wiser than we-
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee.

For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise but
I feel the bright eyes
Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling- my darling- my life and my bride,
In the sepulchre there by the sea,
In her tomb by the sounding sea.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Nina Simone em Vale a pena ouvir de novo

My Baby just cares for me.
...
My baby don't care for shows
My baby don't care for clothes
My baby just cares for me
My baby don't care for cars and races
My baby don't care for high-tone places

Liz Taylor is not his style
And even Lana Turner's smile
Is somethin' he can't see
My baby don't care who knows
My baby just cares for me

Baby, my baby don't care for shows
And he don't even care for clothes
He cares for me
My baby don't care
For cars and races
My baby don't care for
He don't care for high-tone places

Liz Taylor is not his style
And even Liberace's smile
Is something he can't see
Is something he can't see
I wonder what's wrong with baby
My baby just cares for
My baby just cares for
My baby just cares for me

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

St-Mark-s-Basilica-Venice-Italy


Domingo, 14 de Junho de 2009

A Teus pés

Reli estes dias o livro de Ana Cristina César, A Teus pés

é bem pequeno no formato e também no número de páginas, pouco mais de 100. Gosto muito de alguns textos, outros me tocam menos, ou não entendendo, sei lá. Um dos meus preferidos é este:

Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas.


Mas há outros, mais longos e que me dá preguiça de digitar agora. Foi interessante reler este livro pelo que ele oferece, entretanto, fora da leitura, o que me ocorreu foi uma reflexão sobre este volume que está aqui comigo. Ele me foi oferecido por uma antiga colega de trabalho, éramos amigas também...estávamos tentando uma amizade, acho. Faz muito tempo já. Mas o livro não me foi oferecido assim como um presente ‘normal’, na verdade ela tinha recebido de presente de uma ex amiga e, como tinham se desentendido feio ela não quis conservar o livro, repassou. Ainda tem aqui a dedicatória que a ex amiga escreveu para ela, um texto ingênuo, mal escrito, mas com ar de sinceridade, de admiração pela pessoa a quem está oferecendo o livro.

Minha amiga e eu nos desentendemos também no final das contas, isso deve ter sido lá pelo ano de 1996, nunca mais nos falamos, eu voltei para a Europa com (licença, Roberto Carlos) ‘a cabeça cheia de problemas’ (não por causa dela, problemas maiores) e me voilà, tantos anos depois percebo que pouco pensei no assunto. O livro eu não repassei. Nossa amizade não tinha se solidificado, é verdade. É estranho pensar no caminho de um livro, não é?

....

Gostaria de agradecer muitíssimo a uma leitora, Tati, que deixou um comentário no post sobre E o Vento levou sugerindo que eu virasse o DVD para ver o restante do fime. Nem imaginava que existisse isso de virar dvd, queimei meus neurônios tentando descobrir onde estaria a outra metade daquele filme. Que vergonha! Obrigada mesmo.


Agradeço também a Sônia que, mesmo tendo deixado o blog dela de lado, sempre passa por aqui e deixa comentários simpáticos, lê meus contos no outro blog, comenta aqui. É muita gentileza.


Agradeço a todos os que acompanham o meu blog, alguns não têm blog e não posso retribuir, os outros eu tento visitar e comentar na medida do possível. Há blogs que acompanho há anos e talvez eu nunca encontre as pessoas por detrás deles. É estranho quando se pensa.

...

Dentro de alguns dias vou para a Europa por um mês e pouco, como já disse aqui antes, vou fazer um curso para professores de Francês em Vichy, vou visitar a minha amiga (aquela com quem fui para o Chile) no Sul da França, minha irmã em Bruxelas, talvez um amigo em Barcelona porque está bem pertinho do Sul da França. Ainda estou decidindo, só decido na última hora. Enquanto isso muitas coisinhas chatas para resolver por aqui...

...

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

O Poema da sexta-feira

Antes do começo

Ruídos confusos, claridade incerta.
Outro dia começa.
Um quarto em penumbra
e dois corpos estendidos.
Em minha fronte me perco
numa planície vazia.
E as horas afiam suas navalhas.
Mas a meu lado tu respiras;
íntima e longínqua
fluis e não te moves.
Inacessível se te penso,
com os olhos te apalpo,
te vejo com as mãos.
Os sonhos nos separam
e o sangue nos reúne:
Somos um rio que pulsa.
Sob tuas pálpebras amadurece
a semente do sol.
                            O mundo
No entanto, não é real,
                          o tempo duvida:
Só uma coisa é certa,
o calor da tua pele.
Em tua respiração escuto
as marés do ser,
a sílaba esquecida do Começo.

Octavio Paz

Tradução Antônio Moura

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Pró-vida?

É a coisa mais incoerente, defender a vida matando pessoas. Vejam a reportagem, é assustador, um verdadeiro movimento terrorista, organizado. Encontrei o vídeo aqui: sexismo e misoginia.

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

AMOR

....

Domingo, 7 de Junho de 2009

E o Vento Levou

13 graus, meus pés estão gelados. Agora acabei de ligar um aquecedor ultramoderno que temos aqui (foi ironia, nunca vi aquecedores dignos do nome no Brasil, deve haver, mas nas casas dos ricos). Muita gente pensa que eu não devia sentir frio já que morei tantos anos na Europa, no norte além do mais, mas eu sinto, sinto mais frio aqui do que lá quando estou dentro de casa. Eu gosto mais do frio do que do calor, mas prefiro assim, vamos dizer, uma temperatura entre 15° e 25°. Um professor aqui da escola, francês, disse que ele também já sentiu mais frio aqui do que na França. Quem mandou a gente se enfiar no Sul? O Brasil é grande e cá estamos nós...Brincadeira, ainda estou de bem com a cidade, e prefiro passar por isso a sentir aquele calor infernal o ano todo, me dá até dores de cabeça.

Ontem à noite eu e o cachorro nos colamos no aquecedor e ficamos assistindo E o vento levou, acredite se puder, foi a primeira vez na vida que vi este filme...ainda assim não sei se vi inteiro, todo mundo diz que o filme é muito longo, não foi. O filme chegou lá numa parte, aquela famosa da Scarlett dizendo:

As God is my witness, as God is my witness they're not going to lick me. I'm going to live through this and when it's all over, I'll never be hungry again. No, nor any of my folk. If I have to lie, steal, cheat or kill. As God is my witness, I'll never be hungry again.

Depois disso veio uma mensagem, não me lembro o quê, entendi que era um intervalo e fiquei esperando, não queria sair de perto do aquecedor por nada, finalmente fui lá, peguei o controle que eu tinha deixado longe, tentei passar para a frente....nada, niente, rien...procurei para ver se havia um segundo DVD na caixa, não havia. Será que é tudo? Será que comprei gato por lebre? Eu já tinha visto pedaços deste filme muitas vezes, claro, quem não conhece algumas das cenas desse clássico? Eu tenho uma amiga que já o viu não sei quantas vezes e disse que a cada vez chora. Até onde eu vi não deu para chorar, mas eu gostei bem mais do que pensava. É que morei bem ali naquela região, Atlanta, Geórgia e gostei de ver a cidade representada na época da guerra. E mostra também como as pessoas são estúpidas, festejando quando a guerra é declarada, parece que vão para um campo de férias, sem a menor noção e quando alguém tenta ponderar um pouco é visto como um desmancha prazeres, um vendido. Tomara que as coisas tenham mudado de lá para cá, mas não foi o que se viu quando da guerra (invasão) contra o Iraque.
Outro filme que se passa em Atlanta, este bem mais bonito (eu acho) é Conduzindo Miss Daisy. Eu o tinha visto há muitos e muitos anos, mas o revi quando estava em Atlanta. A primeira vez que o vi não tinha idéia nenhuma do contexto e do papel de Atlanta vista como capital do sul.

...
Aqui a famosa cena de Scarlett dizendo que nunca mais vai passar fome:

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Ainda a polêmica em torno do livro de Tezza

Eu tinha reproduzido aqui parte de uma reportagem sobre o estardalhaço que algumas professoras do estado de Santa Catarina fizeram a respeito da escolha do livro de C. Tezza para trabalho com alunos, se não me engano, entre os 15 e 17 anos, ou seja, bem grandinhos. Nem todo mundo concordou comigo que é exagero a retirada dos livros e leram uma pequena parte da obra que foi publicada em algum jornal. Esse extrato era realmente bem "pesado" (por falta de palavra melhor agora), eu também o tinha lido, mas, como o autor e como uma professora de Santa Catarina (e esta leu o livro todo) eu achava que era difícil julgar a obra de 142 páginas por aquele trechinho. Não chamo de censura, concordo que existe livro mais ou menos adequado para certas pessoas/idades....sei lá. Os professores também têm que se sentir confortáveis, claro, mas eu ficaria contente se aproveitassem para rever as suas práticas antes de condenarem um livro e de subestimarem a capacidade dos alunos.

Texto de C. Tezza sobre a proibição do seu livro:

“Entre os danos materiais, está o dano moral do autor ao ver um trecho de seu próprio livro, duas ou três linhas, ser reproduzido nos jornais como se fosse um hai-kai, e não parte de um romance de 142 páginas, em que cada palavra se relaciona com o todo e é voz de um narrador-personagem capaz de dar significado à sua linguagem. Notem: não faço uma apreciação de valor. É simplesmente um dado técnico para o leigo entender como uma narrativa produz sentido."

O resto do texto pode ser lido aqui:

Gazeta do Povo

...

Aqui o comentário que a professora deixou lá no post:

Sou professora do ensino médio e garanto a vocês que o livro está adequado sim para os alunos. Li o livro na íntegra, não podemos justificar nossa opinião se apenas lemos um trecho. Inadequada é a postura de muitos educadores que negam ou ignoram nossa realidade social e perdem a chance de fazer um ótimo trabalho com os alunos. Em uma pesquisa que fiz com minhas turmas, constatei 80% deles têm acesso diário a sites pornográficos. A função da escola é ensinar o aluno a questionar essa realidade em vez de fingir que isso não acontece. Considero que o livro é muito profícuo para levantar tais questionamentos. Uma sociedade de ignorantes é também uma sociedade perigosa. A decisão foi arbitrária, pois a maioria dos professores não teve acesso aos livros.

Sylvia Plath

"Quando eles perguntavam a qualquer velho filósofo romano como ele queria morrer, dizia que rasgaria as veias, num banho quente. Achei que seria fácil, deitada na banheira e vendo a vermelhidão florir dos meus pulsos, jorro após jorro penetrando na água limpa, até que eu me afundasse no sono sob a superfície rubra como papoulas. Mas quando cheguei às vias de fato, a pele do meu pulso parecia tão branca e indefesa que não consegui nada. Era como se o que eu quisesse matar não estivesse naquela pele ou naquele pulso magro e azulado que latejava sob o meu polegar, mas sim em algum outro lugar, mais profundo, mais secreto, e muito mais difícil de ser alcançado."

Trecho do livro
A Redoma de Cristal (The Bell Jar) que o Kovacs resenhou lá no seu mundo.

o poema da sexta-feira

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?

Ferreira Gullar

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

I Put a Spell On You


...


I put a spell on you
cause youre mine

You better stop the things you do
I aint lyin
No I aint lyin

You know I cant stand it
Youre runnin around
You know better daddy
I cant stand it cause you put me down

Domingo, 31 de Maio de 2009

Livro de Cristovão Tezza é proibido em escolas de Santa Catarina

Mais de 130 mil exemplares do romance Aventura Provisória foram recolhidos

A Gerência Regional de Educação da Região Carbonífera, no Sul de Santa Catarina, concluiu nesta semana o recolhimento de 6.236 exemplares da obra Aventuras Provisórias, do autor catarinense Cristovão Tezza. Em todo o Estado, foram recolhidos mais de 130 mil exemplares.

A determinação partiu da Secretaria de Estado da Educação há cerca de duas semanas. O motivo teria sido o uso de palavras inadequadas, segundo avaliação de professores que tiveram acesso ao título antes da distribuição aos alunos do ensino médio da rede estadual. O conteúdo descreve, por exemplo, trechos de relações sexuais (leia trecho abaixo).

Segundo nota divulgada nesta quinta-feira, pela secretaria, a "aquisição (dos livros) deu-se pelo processo licitatório nº 088/08 ao custo unitário de R$ 11,75".

Continua aqui.
...
Eu não li o livro em questão, mas não importa, acho de uma ingenuidade enorme, senão burrice, o que essas professoras (infelizmente só vi nome de mulheres ali) estão fazendo. Os alunos para quem os livros seriam destinados estão na faixa dos 14 aos 18 anos....ora, por favor. Honestamente não sei o que se passa na cabeça dessas pessoas, o que será que esperam dos alunos? E o que é literatura para esses professores? Querem oferecer aos alunos um manual de boas maneiras?
Leiam aqui:

"— O vocabulário é exagerado e essas palavras queremos extingui-las da boca dos alunos, banir do ambiente escolar. O aluno não está preparado para receber esse conteúdo — avalia Maria Gorete.
"

Julgam um livro pelo número de palavrões e descrições eróticas que não devem ser novidade nenhuma para as supostas 'crianças'. Não é com professores assim que os alunos vão aprender a gostar de ler, isso é certo. Mas eu conheço um pouco o gênero, já trabalhei em escolas assim, nem tinha saído da universidade ainda quando fui dar aulas de português - durou dois meses - em uma escola do estado que tinha uma equipe deste naipe. A coordenadora me odiava, nunca entendi bem o porquê. Os alunos, em compensação me adoravam. Eu me lembro da hipocrisia das professoras, na sala dos professores contavam coisas escabrosas e na frente dos alunos pareciam umas carolas. Não digo que deviam fazer confidências aos alunos, mas não achava aquela postura coerente, era muito fingimento, aquela coisa do 'faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço'.
Bom, o Cristovão Tezza não saiu sapateando, foi super elegante, preferiu ficar neutro e disse que os professores devem decidir se adotam seu livro ou não. O que ele pode fazer?

Só sei de uma coisa, agora estou com vontade de ler este livro....já que passei dos 18 acho que posso.

Sábado, 30 de Maio de 2009

Passe os livros adiante

Por Arlete Salvador

Há sempre alguém sentado sozinho numa mesa para quatro pessoas na praça de alimentação lotada. Os outros clientes, com a bandeja de comida na mão, rodopiam pelos corredores como Charles Chaplin em cena do filme Tempos Modernos. Eu me espanto com essa cena no Brasil. Fora daqui, não haveria constrangimento em dividir a mesa com desconhecidos. Aqui vale a cultura da individualidade. Cada um na sua.

A história se repete quando se trata de livros. Preferimos guardá-los em casa e expô-los nas estantes como troféus de erudição em vez de dividí-los. É comum ouvir gente dizendo que não gosta de emprestar livros para quem não os devolve. E para quê devolver? Não seria melhor passá-los adiante, fazê-los circular, deixá-los encantar outras pessoas? Considero a doação de livros um dos gestos mais generosos de quem quer contribuir para o desenvolvimento do país e da Educação.

Em boa parte das bibliotecas das escolas, quando há bibliotecas e livros, a lista de itens inúteis costuma ser longa, todos doados por alguma alma “bondosa”. Encare a verdade. O que doamos? Livros antigos e desatualizados. Livros desinteressantes, principalmente os que recebemos de brinde no final do ano. São aqueles impressos com dinheiro da Lei Rouanet cujo conteúdo só interessa a quem captou o dinheiro e seus financiadores. Na primeira oportunidade, passamos para os mais pobres. Além de egoístas, somos hipócritas. Se não os lemos, por que os meninos os leriam? Tratamos as doações como uma forma de nos livrarmos sem culpa do lixo da biblioteca de casa.

Muitos governos também preferem dar livros para cada um dos estudantes em vez de investir na biblioteca. Assim, não há dinheiro que chegue. É puro marketing político. O governante garante votos nas próximas eleições e os meninos guardam seus presentes em casa. Num país onde o livro é caro e há milhares de estudantes carentes, é preciso investir em soluções coletivas. Em bibliotecas públicas. Com políticas de valorização do uso coletivo de livros e com doações privadas - daquelas verdadeiras, de livros de qualidade - dá para acreditar em mudar o futuro dos estudantes brasileiros.

Arlete Salvador é jornalista e autora dos livros A Arte de Escrever Bem e Escrever Melhor, ambos publicados pela Editora Contexto.

Retirei do site Educar para Crescer. Gostei muito por isso me permiti reproduzi-lo aqui. Nesse site tem também um teste delicioso: Que livro você é? Cheguei a ele através do blog da Laura, Caminhar. Por coincidência eu sou o mesmo livro que ela, A Paixão Segundo GH. Horror dos horrores, nunca li o livro, mas gosto de tudo o que li de Clarice até hoje. Acho que eu nunca li A Paixão Segundo GH porque a tal barata sempre me assustou. Sei que é ridículo.
...
imagem: Renoir

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

O Poema da sexta-feira

IRMANDADE

Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

Octavio Paz

tradução: Antônio Moura


Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

"A CABEÇA DO FUTEBOL"



"A CABEÇA DO FUTEBOL"


Organização: Carlos Magno Araújo,

Samarone Lima e Gustavo de Castro

Brasília: Casa das Musas, 2009.

ISBN 9788598205526



O que pode resultar da tabelinha entre três amigos, jornalistas apaixonados por futebol e por literatura? Um gol de placa e a modéstia adormecida no fundo das redes. Trivela para cá, lançamento para lá, um voleio indefensável acolá, Gustavo de Castro, poeta, professor da UnB, e jornalista radicado em Brasília, Samarone Lima, jornalista e escritor no Recife, e Carlos Magno Araújo, jornalista em Natal, também cartolas temporários neste sonho de reunir craques do jornalismo e da literatura para falar do mais passional dos esportes, mataram a tarefa no peito e agora jogam para a torcida - sem firulas. Não esperam a glória fútil de um Motoradio, a entrevista útil na boca do túnel ou o destaque na resenha da noite. Foi tudo por amor ao futebol – sem preço que pague. (trecho da apresentação)


O que passa na cabeça do brasileiro quando o assunto é futebol? Foi com a intenção de descrever e investigar a emoção, a imaginação e a racionalidade futebolística que Gustavo de Castro, Samarone Lima e Carlos Magno Araújo decidiram organizar a coletânea


"A CABEÇA DO FUTEBOL"

Editora Casa das Musas, 2009,

R$ 25,00

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Dentre os autores a nossa cara Elianne Diz de Abreu do Caminhar.

Silviano Santiago

"Um homem ambicioso ao extremo e sem princípios éticos, que no final da vida faz seu balanço, serve de metáfora da cara do Brasil nos últimos 60 anos. Este é o enredo de Heranças, de Silviano Santiago. Na dica de Leituras, pontos de renovação da prosa de língua portuguesa com O Dom, de Jorge Reis-Sá e Peixe Morto, de Marcus Freitas. (Disponível até 07/06/09)"

Entrevista na TV Senado.

Sábado, 23 de Maio de 2009

Down and Out in Paris and London

Decidi pela pausa entre o volume 1 e o 2 de Os irmãos Karamázov e li, quer dizer, estou terminando de ler este Down and out in Paris and London* de George Orwell. Estava planejando ler este livro há algum tempo, desde a última vez que estive em Londres (há quase dois anos, talvez) e o marido da minha prima, um inglês, me falou do livro. Ele gosta muito de G. Orwell, como ele ainda estava lendo o livro eu não ousei pedir e também não comprei o livro naquela ocasião, não sei o porquê, decerto que não tinha mais tempo ou já tinha acabado a minha quota de livros. Agora acabo de receber uma visita dos Estados Unidos e o encomendei, deve ter custado no máximo 5 dólares, é usado e foi comprado pelo site da Amazon. É possível também ler online aqui.

O livro foi publicado em 1933, um dos primeiros trabalhos publicados de G. Orwell, ao que parece o livro foi recusado muitas e muitas vezes. O livro que é considerado biográfico (ou semibiográfico) começa com um relato da época em que Orwell estava vivendo uma vida de miséria em Paris, quando chegou dava aulas de inglês, depois o seu único aluno desaparece e ele se vê cada vez mais à deriva, descreve o hotel onde vivia, os arredores, o momento em que não tem mais dinheiro nem para pagar o quarto horrível onde vive, a fome, a vida dos outros tão miseráveis quando ele. Finalmente Orwell consegue um trabalho como plongeur em um hotel muito rico (ele nunca escreve o nome) na cidade. Plongeur é a pessoa que lava pratos num restaurante, trabalha até 15 horas por dia, o autor mesmo descreve este trabalho como sendo o pior de todos na hierarquia, um plongeur é o 'escravo do escravo'. A vida de um plongeur se resume a 3 coisas: sobreviver ao dia de trabalho, comer alguma coisa, dormir algumas horas. É horrivelmente triste. O cansaço e a falta de tempo mata qualquer desejo, qualquer possibilidade de mudança, qualquer reflexão, desumaniza. Além disso ficamos sabendo dos bastidores também, o hotel chiquérrimo na frente e nos fundos a porcaria total, comida preparada sem nenhum cuidado, pouca importava a higiene contanto que o prato estivesse apresentável, bonito. O autor até conta que uma vez foi lavar as mãos antes de pegar na manteiga e os outros riram dele. Li que os donos de hotéis parisienses reclamaram muito quando o livro foi finalmente publicado. Eu os entendo perfeitamente.

Um dia Orwell deixa a vida de plongeur em Paris e volta para Londres, um amigo tinha lhe arrumado um trabalho, quando chega a Londres entretanto, outra decepção, ia ter que esperar um mês pelo menos para começar o trabalho e aí começa a outra etapa, a vida de mendigo que ele descreve em detalhes, as caminhadas de um abrigo a outro (não se podia dormir no mesmo abrigo mais de uma vez), a sujeira, as doenças, a ignorância, a fome outra vez...

Eu não sei se Orwell decidiu viver essa experiência só para narrar depois, tem gente que diz que sim. Mesmo depois de ser um escritor já reconhecido ele vivia uma vida extremamente simples, como se tivesse feito um 'voto de pobreza' alguns amigos dizem.

O verdadeiro nome de Orwell é Eric Arthur Blair, ele nasceu em Londres, no dia 25 de junho de 1903 e morreu em 1950. Seus trabalhos mais conhecidos são Animal Farm** e 1984.

*Na Pior em Paris e Londres (no Brasil) e Na Penúria em Paris e Londres (em Portugal)
**A Revolução dos Bichos.

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

O Poema da sexta-feira

Psicografia

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto

Ana Cristina César

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

Snowy-Landscape
Ando Hiroshige

O Poema da sexta-feira

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus olhos.

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.

E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência -curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.

Lord Byron

Tradução de Castro Alves

Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Os Irmãos Karamázov

Estou terminando o volume 1 de Os Irmãos Karamázov, uma das minhas melhores leituras dos últimos meses (a pior foi certamente aquele Travesuras de la Niña Mala). Estou contente também com esta edição - Editora 34 - que escolhi, é um livro bonito, bem cuidado, bem ilustrado. Mais importante ainda é a tradução que parece ser uma das melhores feitas até hoje. Algumas edições antigas foram feitas a partir do francês. Imagine, se o tradutor é um traidor, traduzindo de uma tradução vira o quê? Li essa semana na Folha que o tradutor desta edição, Paulo Bezerra, recebeu um prêmio da ABL pelo conjunto de sua obra. Deve ter merecido.

A parte que eu estava lendo ontem, uma conversa entre os irmãos Ivan e Alyosha era sobre crença, crença e descrença se se pode dizer assim. Alyosha parece ser o personagem principal, mas Ivan é o mais interessante até agora. Nessa longa conversa entre os dois irmãos, Ivan que é mais velho fala a Alyosha que é extremamente religioso, sobre suas dúvidas, basicamente ele rejeita a existência de Deus com o argumento de que não é possível aceitar um ser supremo, com poder absoluto e que permita tanto sofrimento na terra. Ivan usa, para ilustrar seu argumento, o sofrimento das crianças, esses seres que não tiveram 'nem tempo de pecar.' Aparentemente os casos citados por Ivan são baseados em histórias reais que aconteceram na época em que o autor vivia. Um deles é sobre uma garotinha de 5 anos que é torturada pelos próprios pais por não se comportar do modo como eles esperam. Outro caso se refere a um garoto de 8 anos, filho dos servos de um tal senhor que tem inúmeros cães, um dia um dos cães está mancando e o homem quer saber a razão, dizem-lhe que o garoto em questão lançou sem querer uma pedra e o cão foi atingido, o senhor ordena então que prendam o garoto durante toda a noite e pela manhã ordena que soltem o garoto e deixa que os cães o estraçalhem na frente da mãe. Alyosha que é religioso fica desesperado diante dos casos ilustrativos do irmão.

Eu pensei em terminar o volume 1 e fazer uma pausa, ler outra coisa antes de iniciar o volume 2. Vamos ver. Se continuar interessante assim não vou conseguir parar.
...


Sábado, 9 de Maio de 2009

Will Self ironiza as religiões no romance "O Livro de Dave"

[Já tinha lido sobre este livro em algum blog, agora li esta reportagem na Folha, estou curiosíssma a respeito]

RAQUEL COZER
da Folha de S.Paulo

Prega a Bíblia que não se deve cobiçar a mulher do próximo. Em "O Livro de Dave", a ordem é simplesmente não cobiçar a mulher. Nenhuma delas.

Esse é apenas um dos preceitos religiosos que passam a reger a humanidade depois de um colapso da natureza, segundo a imaginação de Will Self, 47, um dos maiores escritores britânicos da atualidade.
No romance, que sai agora no Brasil pela Alfaguara, uma Inglaterra pós-catástrofe ambiental aparece quase toda submersa, com habitantes vivendo sob os ensinamentos de Dave Rudman, taxista loser da Londres contemporânea.

Como o personagem passa de motorista a profeta é algo que Self revelará nos detalhes mais espinhosos. Após perder a guarda do filho para a ex-mulher, Dave escreve e enterra um volume com ideias sobre como o mundo deveria ser --homens e mulheres vivendo separados, com guarda de filhos dividida, é um exemplo. Séculos depois, o livro é encontrado na ilha de Ham (que um dia foi Hamsptead) e vira a nova Bíblia.

O romance explicita a visão do autor sobre como a necessidade de uma religião --um "bálsamo metafísico", nas palavras dele-- pode fazer as pessoas aceitarem normas "sem sentido". "Não penso que toda religião seja ruim", diz Self à Folha por e-mail, "mas o conteúdo de um livro sagrado é menos importante que a busca do ser humano pela doutrina religiosa".


Continua....

Le Pont Neuf
Edouard Boubat

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

O Poema da sexta-feira

Uma arte


Elisabeth Bishop

tradução Paulo Henriques Britto

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

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One art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

Elizabeth Bishop

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Para ouvir o poema clique aqui.

Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Mensagem de adeus de Stefan Zweig

Encontrei esta carta de despedida numa página francesa dedicada ao autor e procurando por aí achei a versão em português neste site da casa Stefan Zweig. Na verdade não sei em que língua ele redigiu sua mensagem, suponho que tenha sido em alemão. Faz pouco tempo reli um livro de Zweig, O Jogador de Xadrez, uma história bem curtinha e muito boa de um campeão de xadrez, um cara bronco, vaidoso, mas que joga muito bem. Um dia encontra um oponente à altura, mas fora dos campeonatos, esse oponente é que é a peça interessante da história, ele aprendeu a jogar durante o tempo em que esteve só, preso numa cela, ali encontrou um livro que descrevia várias jogadas, para não ficar louco na prisão ele foi guardando na memória as várias possibilidades.
.....
Declaração Stefan Zweig
Antes de deixar a vida, de livre vontade e juízo perfeito, uma última obrigação se me impõe: agradecer do mais íntimo a este maravilhoso país, o Brasil, que propiciou a mim e à minha obra tão boa e hospitaleira guarida. A cada dia fui aprendendo a amar mais e mais este país, e em nenhum outro lugar eu poderia ter reconstruído por completo a minha vida, justo quando o mundo de minha própria língua se acabou para mim e meu lar espiritual, a Europa, se auto-aniquila.Mas depois dos sessenta anos precisa-se de forças descomunais para começar tudo de novo. E as minhas se exauriram nestes longos anos de errância sem pátria. Assim, achei melhor encerrar, no devido tempo e de cabeça erguida, uma vida que sempre teve no trabalho intelectual a mais pura alegria, e na liberdade pessoal, o bem mais precioso sobre a terra.Saúdo a todos os meus amigos! Que ainda possam ver a aurora após a longa noite! Eu, demasiado impaciente, vou-me embora antes.
Stefan ZweigPetrópolis, 22. II. 1942

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

O BROTHER WHERE ART THOU - - Song of the Sirens


....
Adoro as músicas de O Brother where art thou. Na verdade o filme é feito de música, não? Quase todo mundo já deve ter visto, passou bastante na tv, é bem divertido.

Sábado, 2 de Maio de 2009

Feriado

Não fiz quase nada do meu feriado, o que foi ótimo. Descansei, estava um caco...naqueles dias, if you see what I mean. Precisava mesmo de descanso, dormir até tarde, andar um pouquinho com o cachorro (se bem que isso eu faço todo dia), ler Os Irmãos Karamazov, ir ao cinema ver Wolverine, tomar um capuccino num café bacana com uma livraria ao fundo, folhear livros, bater papo. Tudo isso eu fiz. Estava muito tensa, só agora está passando. Dormi, dormi bastante, o friozinho ajudou. Está quase tudo no lugar agora, as idéias, digo. Pelo menos na medida do possível.
...

Acabei de ver na Folha de São Paulo que Augusto Boal morreu nesta madrugada.

Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

O Poema da sexta-feira

“Alguns guardam o Domingo indo à Igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um Sabiá como cantor
E um Pomar por Santuário.
Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas Asas
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando, pregador admirável
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
Eu o encontro o tempo todo no quintal.“

(Emily Dickinson, 1830-1886)

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Venice-Canal- CYNDI SCHICK

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

Os Mandarins, Beauvoir

Acabei de ler, já faz alguns dias, o segundo volume de Les Mandarins. É um desses livros que estava nos meus planos há alguns anos e levei bem menos tempo do que pensava para a leitura dos dois volumes, cada um com mais ou menos 500 páginas nessa edição de bolso que comprei aqui mesmo em Curitiba, na FNAC. Não me lembro mais quanto paguei, mas não foi caro. 

Eu já disse antes que tenho preguiça de encarar romances muito longos, é que adoro contos, narrativas curtas. Assim que fechei Os Mandarins peguei um livro do D. Trevisan (falando em narrativas curtas, taí!), O Vampiro de Curitiba, por incrível que pareça eu nunca tinha lido este livro e li muito Dalton Trevisan na vida, muito muito antes de pensar em viver em Curitiba algum dia. A Curitiba que eu conhecia até algum tempo atrás era a dele. 

Voltando à Beauvoir. O livro começa logo depois do final da segunda guerra, mostra a euforia inicial, a alegria do recomeço, mas também a dor e o desespero de alguns personagens por terem perdido pessoas queridas, Nadine, por exemplo perde o namorado judeu, outro personagem perde a namorada também judia e ainda desconfia que o próprio pai pode tê-la entregado aos alemães. O universo é o intelectual, escritores, comunistas, jornalistas, pessoas que trabalharam juntas na resistência. Aprende-se bastante sobre a época com madame Beauvoir. Esse era o universo dela e de Sartre, na verdade. Há muito de auto-biográfico aqui.

Há uma parte em que Anne, uma das personagens principais, está viajando pela América Central com seu amante amante americano, num dado momento ela diz: Eles parecem felizes, estes índios. E Lewis, o amante americano, dá de ombros e responde: "É fácil dizer isso, quando a gente passeia por Little Italy numa bela tarde ensolarada, as pessoas também parecem felizes". Ela termina concordando com ele, percebe que seu olhar foi superficial. Eu achei interessante porque quando estamos viajando às vezes fazemos mesmo isso, julgamos muito rápido, pelo nosso humor ou baseado no nosso modo de vida. 

Honestamente não sei se entendo o que é o amor para os franceses. Quando este casal, Lewis e Anne (não se esquecer que Simone de Beauvoir também teve um amante americano, voilà, autobiografíssimo), enfim, quando a relação está chegando ao fim, Lewis diz que não a ama mais, ela diz: "Lewis, não sei se eu deixarei te amar, mas sei que toda a minha vida você estará no meu coração." Enfim, acho que ela quer dizer, 'eu deixarei de estar apaixonada', sei lá. Será que eu complico demais ou são os franceses?
...
E, marco histórico na vida desta leitora, comecei a ler Os Irmãos Karamazov, escolhi a tradução da Editora 34, li que está bem melhor que as edições anteriores. O livro é bom desde as primeiras páginas. Se pudesse não faria nada por esses dias a não ser ler este livro, só pararia para um ou outro café. 

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

O Poema da sexta-feira

Deslumbramentos


Milady, é perigoso contemplá-la

Quando passa aromática e normal,

Com seu tipo tão nobre e tão de sala,

Com seus gestos de neve e de metal.



Sem que nisso a desgoste ou desenfade,

Quantas vezes, senguindo-lhes as passadas,

Eu vejo-a, com real solenidade,

Ir impondo toilettes complicadas!…



Em si tudo me atrai como um tesoiro:

O seu ar pensativo e senhoril,

A sua voz que tem um timbre de oiro

E o seu nevado e lúcido perfil!



Ah! Como me estonteia e me fascina…

E é, na graça distinta do seu porte,

Como a Moda supérflua e feminina,

E tão alta e serena como a Morte!…



Eu ontem encontrei-a, quando vinha,

Britânica, e fazendo-me assombrar;

Grande dama fatal, sempre sozinha,

E com firmeza e música no andar!



O seu olhar possui, num jogo ardente,

Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;

Como um florete, fere agudamente,

E afaga como o pêlo dum regalo!



Pois bem. Conserve o gelo por esposo,

E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,

O modo diplomático e orgulhoso

Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.



E enfim prossiga altiva como a Fama,

Sem sorrisos, dramática, cortante;

Que eu procuro fundir na minha chama

Seu ermo coração, como a um brilhante.



Mas cuidado, milady, não se afoite,

Que hão-de acabar os bárbaros reais;

E os povos humilhados, pela noite,

Para a vingança aguçam os punhais.



E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,

Sob o cetim do Azul e as andorinhas,

Eu hei-de ver errar, alucinadas,

E arrastando farrapos - as rainhas!


Cesário Verde

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Amanhã é o dia do 'bookcrossing', vamos em frente


Amanhã é o dia do livro. Leia aqui
Vamos distribuir alguns por ai. Especialmente para aqueles que nunca tiveram acesso a uma livraria- eu tenho vizinhos aqui assim.
Que tal dar um romance instigante que os faça gostar de ler?
Vamos lá, falem com seus amigos.
...
Copiado diretamente do blog Caminhar.
Kim Anderson

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

"Os Autores de Hoje São Todos Parecidos"

Décio Pignatari fala de seu novo livro, “Bili com Limão Verde na Mão”, e diz que as artes estão num período de espera pelo novo

O que há de novo hoje no panorama literário?

Depois da poesia concreta, não surgiu nada mais de diferente. Hoje entramos numa era de quantidade. A era da globalização é a da quantificação. Não existe nenhum movimento especial. A prosa ganhou força porque, se você conquistar um mínimo de mercado, pode viver do que faz, mesmo no Brasil. Mas nossos romancistas tomam por modelo sujeitos medianos. Os escritores brasileiros que se julgam de vanguarda imitam o tal Thomas Bernhard, por exemplo — que é uma prosa mais-ou-menos. Estamos vivendo um período magmático. Todas as artes e ideias estão voltando a um magma primitivo de onde eventualmente nascerá alguma coisa nova. A produção é enorme, em todas as áreas. Mas é tudo parecido.

Entrevista Bravo.

Sábado, 18 de Abril de 2009

Contos proibidos do Marquês de Sade


Ontem à noite revi o filme Quills, Contos proibidos do Marquês de Sade título dado no Brasil e, acabei de ver no wikipedia, Quills - As penas do desejo em Portugal. Adoro a palavra Quills (pena), gosto da sonoridade, mas o l tem que ser pronunciado, se se pronunciar ‘quiu’ como algumas pessoas pronunciam no Brasil já perde a graça. Eu tinha visto o filme no cinema, assim que saiu, eu morava em Cingapura. Parece que o filme me impressionou mais agora do que na época. Será que perdi muita coisa, lingüisticamente falando, ou será que eu me esqueci mesmo? Não gosto muito do final com o padre, Joaquin Phoenix substituindo o Marquês na loucura, não entendi bem.

A Kate Winslet está linda, muito mais que isso, é uma atriz e tanto, quer dizer, já era uma atriz e tanto e acho que quando vi Contos proibidos pela primeira vez nem sabia quem ela era. Já existia Titanic (acho) mas esse eu não vi até hoje.

Outro ator excelente é Michael Caine no papel de um médico famoso e muito vagabundo. Ele é usado no filme para mostrar que aqueles que julgam, os moralistas, são uns hipócritas não menos perversos do que aqueles que eles estão julgando. Pensando bem, agora enquanto me lembro do filme, acho que essa mensagem é óbvia demais, meio exagerada. Enfim, este médico que é enviado para ‘dar um jeito’ no marquês no hospício onde ele se encontra, Charenton, é um sádico (termo que não existia ainda, claro, já que o devemos justamente ao Marquês em questão) e pedófilo, ele casa-se com uma garota de uns 16 anos aproveitando da sua condição de órfã. O tal médico tem boas desculpas para praticar suas atrocidades, é o seu trabalho, ele vem para o hospício com toda a sua aparelhagem de tortura, está supostamente curando os loucos, mas percebe-se que ele se diverte bastante. Um nojo. O Marquês não é santo, estou falando do filme, não sei até que ponto é ficção, sabe-se que o escritor viveu anos e anos (uns 30, alguns biógrafos dizem) em prisões e hospícios, enfim, ele está longe de ser santo, mas – aqui no filme – simpatizamos muito mais com ele que é explícito do que com este doutor.

Outra coisa impressionante no filme é a obsessão do Marquês pela escrita, escreve de qualquer modo, em qualquer lugar, tiram-lhe a pena, escreve com o vinho, tiram-lhe o vinho, escreve com o próprio sangue e até mesmo com a própria merda. Mas desconfio que haja realmente muita ficção aqui. O ator que faz Sade parece que não tem nada em comum com o escritor que era bem menor e, nessa época deCharenton, bem mais gordo. Sabe-se também que o escritor não teve aquela morte horrível que tem no filme. Morreu durante o sono, tranqüilamente. É normal, a maioria dos filmes tende a dar umas pinceladas nas figuras literárias que retratam, não só literárias, quem viu o filme Frida e conhece um pouco da vida da pintora e de Diego Rivera sabe do que estou falando.

Do mesmo diretor, Phillip Kaufmann, é também Henry and June, outro filme sobre escritores, Henry Miller e Anais Nin. Este eu vi faz um século e nunca revi, nem saberia dizer se é bom ou não. Na época eu goste ‘mais ou menos’, mas as coisas mudam, os gostos também.

...

[uma noite depois...]

Acabei, meio por acaso (na realidade porque não encontramos o último episódio de Lost que está aqui nessa casa, em algum lugar), vendo outro filme sobre escritor, escritores no caso, trata-se de Verlaine e Rimbaud, Eclipse de uma paixão. Não gostei. Verlaine é um homem repugnante no filme, bebe, maltrata sua jovem esposa, é covarde, Rimbaud é um garoto irritante, sem educação, insuportável. Acho que é bem melhor ler a poesia deles do que ver uma obra destas. Eu sabia da natureza indomável de Rimbaud, das estrepolias de Verlaine e isso não faz deles um escritor pior ou melhor, mas não gostei da forma como é colocado tudo isso no filme. O problema não são os escritores, é o filme. Entretanto a cineasta, A. Holland é a mesma que fez o maravilhoso Europa, Europa.

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

O Poema da sexta-feira

Amor Bastante

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

Paulo Leminsk

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009


Steve McCurry

Domingo, 12 de Abril de 2009

Descansei, li, relaxei. Viva a páscoa! Ah, sim, comi algum chocolate.Algum não, muito. Sejamos sinceros.
...

Friozinho bom em Curitiba, daqui a dois meses duvido que eu esteja falando assim do frio, mas hoje está ótimo, já estava com saudades desse tempo.

...
Lendo o volume dois de Les Mandarins, estou gostando muito. Romances longos às vezes me cansam, leva tempo e eu fico ansiosa querendo ler outras coisas. Na verdade acabo parando um pouco a leitura e lendo outras coisas mesmo e depois volto ao livro, mas estou gostando muito. Fazia tempo que Os Mandarins estava na minha lista, sobretudo depois de trocar algumas ideias com Wagner Campelo (infelizmente parou de publicar o blog dele, hebdomadário). Ele é um apaixonado pela S. de Beauvoir, criou até uma página muito bem feita sobre a escritora - aqui.
...
Minha irmã me trouxe 4 livros de
Littérature chinoise, meio revista literária...ainda estou lendo. Muito interessante, tem alguns contos, extratos de livros, publicações culturais...tudo em francês, só a capa tem umas inscrições em chinês, foi impresso na China em 1978, 1980....A primeira história que li é muito boa, é sobre uma menina bem pobre que é usada por todo mundo, pelos pais, depois pelo marido, sogra. Vou tentar contar a história num post.
Minha irmã disse que estava olhando para aqueles livros e pensando em mim, 'será que levo isso para a Leila?', o dono da bagunça perguntou 'Está interessada?', ela disse 'humm...sim' e ele respondeu 'Então pode levar.' Assim de graça mesmo. Ainda bem.
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Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

O poema da sexta-feira

Pour faire le portrait d'un oiseau

Peindre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger...
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il le faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.

Jacques Prévert

(04/02/1900 - 11/04/1977)

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No Mundo de K você pode ler a tradução do poema e um texto sobre Prévert.

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009


Margaret Bourke-White (1904-1971)

Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Os Escritores e Seus Animais

Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Passou por aqui (5 dias só) minha irmã com o sobrinho que está completando dois anos. Uma graça, nos fez rir muito. Agora foram para Minas, lá eles ficam uns dias e voltam para Bruxelas. Se tudo der certo pretendo ir vê-los lá em julho e fazer um curso para professores de francês que ainda não decidi se será na França ou na Bélgica. Se for na França será em Vichy, se for na Bélgica será em Louvain-La-Neuve, pertinho de Bruxelas.

Tenho trabalhado muito. Gosto de trabalhar, mas preferia trabalhar menos horas do que agora e ler um pouco mais, escrever, quem sabe....c´est la vie! Pelo menos por enquanto não sei mudar isso.

Acabei de ler o Volume 1 de Les Mandarins, gostei muito, mas estou dando uma pausa entre os dois volumes e lendo O Filho Eterno de Cristovão Tezza. Do autor eu tinha lido um só livro lá dos primórdios da carreira dele e este último é muuuuuuito melhor. É um livro sensível, maduro, mas não preciso dizer nada disso porque os 3 ou 4 prêmios que o livro recebeu devem significar mais que minha opinião.

Há uma crítica muito boa no Le Monde Diplomatique, para ler na íntegra clique aí :

"Mais do que uma história de filho doente, O filho eterno é uma bela reflexão sobre a paternidade, sobre ser escritor e sobre o momento político conturbado dos anos 1980. Vemos a persistência de um autor que acumula, em sua gaveta, cartas das editoras contendo avaliações negativas de suas obras, relembramos os absurdos sistemas de financiamento habitacional da era Sarney, além do amadurecimento de ponto de vista de um ser humano em seu papel de pai. Reflexões que poderiam facilmente se transformar em autocomiseração, dado o tema com forte apelo emocional, mas o texto foge disso."
.....
A fotografia que postei abaixo é de uma tia de Virginia Woolf (até já falei dela antes num texto sobre biografia de V. W. aqui), Julia Margaret Cameron. Vi
há alguns anos, em Charleroi, uma exposição dos retratos que ela fez. Ficou conhecida como 'retratista', começou bem tarde a carreira, aos 48 anos, mas tinha talento e dizem que até hoje influencia artistas. Eu acredito, basta observar alguns destes retratos.
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Agora é o cachorro aqui implorando para passear, faz parte da minha rotina. Vou lá, coitado, afinal ele não pediu para viver numa casa e ter que depender de 'gente' toda vez que quer sair, comer, se lavar (se bem que isto acho que ele não gosta muito).

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Julia Margaret Cameron (1815-1879)

Obs: Tia de Virginia Woolf

Sexta-feira, 27 de Março de 2009

O poema da sexta-feira

Noite morta


Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.


Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.


No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.


O córrego chora.
A voz da noite . . .


(Não desta noite, mas de outra maior.)

Manuel Bandeira

Petrópolis, 1921

Quarta-feira, 25 de Março de 2009


Morei perto desta praça por alguns anos, quer dizer, eles chamam isso de praça, muitos brasileiros estranham porque não tem bancos, nem árvores, está mais para uma rotatória. Tirei essa foto da minha janela, faz tempo, não é a vista mais linda do mundo, mas foram bons os anos que passei ali. Na primavera, a avenida que passa aí do lado ficava toda florida, bem rosa. Não sei que árvore era aquela, sou bem fraquinha nessas coisas.

Well, porque estou pensando em Bruxelas? Devo estar com saudades, não costumo tirar muito tempo para as saudades, mas pode ser que ela esteja rondando. Outra razão, minha irmã que ainda vive lá vem passar uns dias comigo, chega depois de amanhã com o sobrinho. Mal posso esperar. Na verdade a família toda está louca para ver o bambino que logo vai fazer dois anos. Essa é a minha irmã que a gente nunca acreditava que fosse ter filhos, na época da gravidez comentei aqui. Foi um choque, não porque ela fosse uma mocinha, tinha 39 anos, a surpresa foi ela ter decido 'ser mãe'. Enfim, é mãe e parece estar se saindo bem.

Estamos com outra francesa aqui em casa, trabalhando conosco na escola, amanhã ela já vai para sua Paris natal e agora vou a uma despedida que os alunos organizaram. Tem sempre gente chegando e gente partindo, minha casa parece uma estação. Por isso não posso me preocupar muito com saudades, fico contente de ter conhecido algumas pessoas e fico feliz se puder revê-las (a maioria, não todas que não sou madre Tereza), se não puder, c´est la vie! Valeu assim mesmo. Mas acho que essa francesa eu vou rever sim, em breve, porque ela 'invocou' que tem que voltar para...São Paulo. Estamos fazendo o possível para ajudar com o visto, já tirou até um CPF que é coisa fácil de se obter no Brasil, o resto vamos ver no que vai dar. Muita gente pensa que a coisa mais fácil para um gringo obter documentos para viver no Brasil. Não é.

Agora vou lá participar da despedida da demoiselle.

April Showers

Sábado, 21 de Março de 2009

Homossexualidade: luzes e sombras do poeta Federico García Lorca


MADRI (AFP) - Ignorada por muito tempo, evitada e até marginalizada, a homossexualidade do poeta espanhol Federico Garcia Lorca, fuzilado aos 38 anos por tropas franquistas, em agosto de 1936, é motivo de um estudo aprofundado por parte de seu biógrafo irlandês, Ian Gibson.


"Lorca e o mundo gay", da Editoria Planeta, que sairá à venda nesta quarta-feira, relata o "drama do grande poeta, ante a sociedade machista e intolerante" representada pela Espanha no começo do século XX, sobretudo sua Andaluzia natal.


Foi "muito difícil" para o autor de "Romancero gitano" (1928) "conviver com sua condição", explica o autor irlandês. "Temia ser tomado por um efeminado".


No entanto, "a obra de García Lorca, de alcance universal, não existiria sem sua condição de marginalizado sexual; sem sua identificação, profundamente cristã, com todos os que sofrem, com todos os que se sentem excluídos ou rejeitados", escreveu Gibson.
O biógrafo, conhecido por seus trabalhos sobre a morte do poeta e por ter contribuído para localizar a fossa comum onde repousava García Lorca na província de Granada (Andaluzia, sul) explica ter querido fazer um "livro de militância"; no qual fique claro e que "se sinta indignação com tendências (homófobas)", que se tornaram "uns dos componentes do assassinato de Lorca", explicou este irlandês de 69 anos, atualmente nacionalizado espanhol e residente em Madri.
O poeta foi fuzilado poucas semanas depois da insurreição franquista, em companhia de dois anarquistas e de um professor, entre as aldeias de Alfacar e de Víznar, a poucos quilômetros de Granada.


Um dos presumíveis assassinos vangloriou-se, em Granada, por ter-lhe dado dois tiros "por el culo, por maricón", segundo Gibson. A ditadura de Francisco Franco que se seguiu à Guerra Civil (1936-39) censurou por muito tempo sua obra e reprimiu os homossexuais.
Gibson abordou de maneira extensa as estadas do poeta em Madri, onde podia fugir do pensamento provinciano andaluz e manter seu "relacionamento muito importante, fundamental", com o pintor Salvador Dalí, além de suas viagens a Nova York e a Cuba.


Mas o trabalho investigativo também versa sobre um amor "impossível" de juventude com uma refinada adolescente da aristocracia de Córdoba, María Luisa Natera Ladrón de Guevara, uma "menina" de olhos azuis que tocava Chopin com perfeição, com suas mãos de porcelana sobre o piano.


"Não foi admirada com ênfase suficiente a valentia do poeta ante sua difícil condição sexual", conclui Gibson.

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yahoo notícias

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

O poema da sexta-feira

Quem está morrendo, amor
precisa de tão pouco
um copo d'água o rosto discreto de uma flor
um leque talvez uma dor amiga
e a certeza que nenhuma cor do arco-íris perceba
quando embora for

Emily Dickinson

Tradução de Ana Cristina César

Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Path in the Oaks II - Louisiana
Monty Nagler

Sábado, 14 de Março de 2009

Tanta coisa e nada

Curtindo preguiça. Mas só comecei mesmo com a preguiça há uns 15 minutos, durante a semana trabalhei pra caramba. Resolvi aproveitar o momento 'preguiça' e passar por aqui. Passeei por uns blogs, li a Folha, devia ir ler meu livro (tenho lido pouco), estou lendo Simone de Beauvoir, Les Mandarins, já disse isso aqui, mas é que estou indo a passo de tartaruga. Ainda por cima parei para ler aquele Travessuras da menina má(la), antes deste eu li O Deserto dos Tártaros, um livro maravilhoso, mas acho que não falei dele aqui. Preferi falar do livro que não gostei, vá entender. Acho que foi pelo seguinte, terminei O Deserto dos Tártaros durante minha viagem ao Chile, sem pensar peguei aquele Travessuras, quando terminei este último já estava em casa tranquila e resolvi comentar a leitura. Levei um bom tempo lendo O Deserto dos Tártaros porque as letrinhas eram muito pequenas e não dava para ler a qualquer momento, em qualquer lugar, como costumo fazer, tinha que ter boa iluminação. Isso nunca tinha me acontecido antes na vida, de sofrer por causa da fonte, às vezes era tão difícil que me dava medo de que problemas de vista viessem realmente a interferir nas minhas leituras. Eu sou bastante míope, uso ora lentes de contato, ora óculos, nunca tive muitas chateação com isso. Até um ano atrás mais ou menos. Primeiro apareceram, as tais moscas volantes, além da miopia, e astigmatismo que me acompanham há anos. Agora é a vez da presbiopia, ou seja, não vejo bem nem de longe, nem de perto, tenho que ficar procurando a distância certa. É coisa da idade, claro. Já consultei a oftalmologista, ela disse que ainda aguento um tempo sem aqueles óculos (bifocais no meu caso, se não me engano), mas não muuuuito tempo. Estou pensando seriamente em fazer a cirurgia. Digo 'seriamente' porque pensar por pensar eu já penso há muito tempo, mas sou muito covarde para cirurgias, tenho que pensar com calma e tranquilidade.
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Acabei de ler uma entrevista, ou melhor, partes dela porque não tive estômago para ler tudo, com o bispo de Olinda que reitera o que já disse antes:
"Estou com a minha consciência tranquila. Não podia prever essa reação em nível nacional e internacional, mas remorso sentiria se tivesse ficado em silêncio"
(...)Em primeiro lugar, nós temos de colocar essa questão no âmbito religioso. Acreditamos em Deus? É sim ou é não. E eu suponho que a grande maioria das pessoas acredita. E acreditar em Deus significa aceitar que Deus é a origem de tudo e é também o nosso fim.
Esse é o Deus dele que, felizmente, muitos católicos rejeitam e mostraram isso agora, outros infelizmente preferem aceitar este deus cruel do que ter um pouco de compaixão por uma pobre garota de 9 anos vítima de abuso desde os seis. Uma crueldade sem limites.

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Meu irmão está na França, em Villefranche de Conflent, na casa da Violaine, aquela com quem viajei para o Chile...Villefranche de Conflent é aquele vilarejo de pouco mais de 200 pessoas, lembram-se? Então, meu irmão me escreveu agora dizendo que o pai de Violaine disse "Espere aí que vou ali pegar uma coisa" (disse em francês, evidentemente, os franceses não são lá muito fortes em línguas) e voltou com um disco de Benito di Paula. Meu irmão quase morreu de rir. É realmente inusitado encontrar isso num vilarejo do sul da França, muitos brasileiros mais jovens não devem nem se lembrar de Benito di Paula.
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Quem sabe um cinema agora...

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Um arcebispo mais ou menos

Contardo Calligaris
Lula se expressou numa ordem perfeita: ele é (primeiro) cristão e (segundo) católico
NA SEMANA passada, no Recife, descobriu-se que uma menina de nove anos estava grávida de gêmeos. A mãe imaginava que a barriga crescente fosse o efeito de um parasito. Mas não era um parasito; era o padrasto, que abusava regularmente a menina e a irmã (de 14 anos, portadora de uma deficiência mental). O abuso começou quando as crianças tinham, respectivamente, seis e 11 anos.
O padrasto foi preso, e uma equipe médica, autorizada pela mãe, interrompeu a gravidez da menina, seguindo a lei brasileira, que permite a interrupção de gravidez em caso de risco de vida para a mãe e também em caso de estupro. Quem conhece alguma menina de nove anos pode facilmente imaginar o que significaria submeter aquele corpo a uma gravidez completa e a um parto duplo.Além disso, qualquer um pode intuir que carregar na barriga, parir e "maternar" o fruto de um estupro é devastador para a mãe assim como para os eventuais rebentos dessa catástrofe. Alguém dirá: "Mas a mulher acabará esquecendo o estuprador (que foi gentil, nem a matou, não é?), e o sentimento materno prevalecerá". Esse conto de fada (machista) não se aplica no caso da menina de Recife.

Continua aqui: Caminhar

O poema da sexta-feira

Haicai


a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença

Paulo Leminski

Quarta-feira, 11 de Março de 2009


Henri Silberman

Terça-feira, 10 de Março de 2009

Simpsons perdem a casa por causa da crise financeira nos EUA


Folha de São Paulo

09/03/2009 - 17h52


A família Simpson perdeu sua casa por falta de pagamento da hipoteca, de acordo com o último episódio da série exibido nos Estados Unidos, uma paródia da crise econômica no país causada pelos financiamentos "subprime" (de clientes de maior risco) de imóveis e do drama vivido atualmente por milhares de pessoas na nação.


Continua aqui.

Sábado, 7 de Março de 2009

Travesuras de la niña mala


Acabei de ler Travesuras de la niña mala, um dos livros que comprei no Chile, mais especificamente em Viña del Mar, num dos dias de muito calor em que nos refugiamos numa livraria. Quer dizer, eu me refugiei porque a minha amiga francesa não tinha problema nenhum com o calor.

Não gostei do livro, já no começo eu tive uma certa intuição de que não era para mim, mas continuei, li até o fim, li a última página neste instante. Continuei porque continuei, sem pensar muito e talvez porque o livro, bem o mal, desperta a curiosidade do leitor. Já é um trunfo, mas não pretendo reler nunca e vai demorar até que eu abra de novo um livro de Vargas Llosa. Não estou afirmando que seja ruim, estou afirmando que eu não gostei. Há autores bons de que não gostamos. Fazer o quê? O pior é que esse é o primeiro livro que leio de Vargas Llosa.

A personagem principal do livro, a tal Menina Má (por mim poderiam ter traduzido como 'menina mala' mesmo, é isso que ela é)é antipática do começo ao fim, só em duas passagens o leitor pode sentir alguma compaixão por ela, quando ela fica doente. Ela é fria, calculista, uma espécie de prostuta de luxo, se prostitui através de casamentos ricos. O outro personagem, o que conta a história e que é chamado de Niño bueno é o gato e sapato dela. É admirável tanta dedicação e tanta passividade.

De qualquer modo isto é só o enredo, poderia até dar uma história interessante. Junichiro Tanizaki já escreveu história semelhante em Noemi, mas é mil vezes melhor a sua forma de contar, isso muda tudo.
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Semana cansativa e quente.

Revi um filme de B. Betolucci, O céu que nos protege, baseado em romance de Paul Bowles (1910-1999). É um filme interessante, basta ver a primeira (ou uma das primeiras) fala do filme:

Turner: Somos os primeiros turistas desde a guerra.

Kit: Somos viajantes, não turistas.

Turner: Qual a diferença?

Port: O turista pensa em voltar para casa assim que chega.

Kit: E o viajante pode nem voltar.

Esse "pode nem voltar" é significativo, não só no filme, mas para todo viajante.


Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Jesus todo poderoso, ajude que hoje faça menos calor que ontem. Só isso, merci beaucoup.
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A luz que surgiu por trás da colina, este é o blog do pessoal, meu irmão é um deles, que está fazendo o documentário de que já falei aqui antes. Eu os encontrei no Chile, estavam filmando uma parte lá porque o Afonso, o personagem, vamos dizer assim, do documentário viveu lá durante um período. Aquele período até o golpe do Pinochet, claro. Agora estão na Alemanha que foi onde Afonso se exilou. Aí no blog cada um fala um pouco das cidades por onde têm passado, dos sentimentos, memória, pessoas que encontram, impressões.
"O nome Colina tem sentido metafórico no título do documentário, dando a idéia de trazer a luz por trás de algo que a esconde, mas na verdade é a sigla do Comando da Libertação Nacional, do qual Afonso Lana fez parte.O Colina foi a organização brasileira de esquerda que combateu o regime militar a partir de 1964, com o objetivo de instalar um estado de inspiração soviética no Brasil. "

Domingo, 1 de Março de 2009

Henri Cartier Bresson

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

o poema da sexta-feira

Marcha de quarta-feira de cinzas

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou.
 


Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri, se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor.


E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade...


A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir, voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar.


Porque são tantas coisas azuis
Há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe...


Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz.


Vinícius de Moraes

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Santiago

Santiago
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De volta à vida normal, ou seja, Curitiba, aulas, preocupações. Santiago, Valparaíso, etc já começa a ser 'passado'. Tão rápido. Violaine, a francesa biônica, já toma hoje os rumos da Europa, volta para seu castelo em Villefranche de Conflent um vilarejo de pouco mais de 200 habitantes.
Comprei poucos livros no Chile: Vargas Llosa, Octavio Paz, Neruda (mais óbvio impossível), Gabriela Mistral (óbvio também), um livro de contos de vários autores e mais dois ou três para presente. Achei meio caro os livros por lá e não há tantas livrarias como em Buenos Aires. É verdade que não me sobrou muito tempo para explorar esse lado, pode ser que tenha alguma região mais interessante para livrarias e sebos. Estou lendo justamente o Vargas Llosa que comprei, comecei a leitura lá mesmo Travesuras de la Niña Mala. Confesso que não estou muito empolgada com esta leitura, mas vou continuar um pouco mais e depois comento aqui.
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